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A Rosa de Stalingrado

Um conto no universo de Eternidade S.A.

Por Daniel Rossi

União Soviética – 3 de fevereiro de 1943
Segunda Guerra Mundial

ph-real

Caminhava atônito pela cidade transformada em campo de batalha. Pelos séculos em que estivera vivo, nunca havia visto uma carnificina tão hedionda quanto esta que o Exército Vermelho e os Nazistas haviam perpetrado. O cheiro que permeava o ar a sua volta era de morte. Alguns focos de incêndio ainda iluminavam as ruas escurecidas pelo crepúsculo que chegara para esconder com a noite um pouco do sofrimento. Vestia um casaco pesado, apropriado para o frio infernal que fazia, mesmo que não sentisse frio. Era mais gelado que o inverno russo, e seu rosto alongado e triste, emoldurado pelos cabelos desgrenhados lhe davam a aparência de alguém que não pertencia àquele lugar.

– São todos loucos! – murmurou com tristeza, enquanto caminhava pelos escombros fumegantes do que antes era uma loja de artigos femininos.

As vezes cruzava pelo caminho com um outro soldado soviético, que lhe reconheciam como o “amigo estranho” do todo poderoso Comandante Jukov. Tinha ganho imunidade naquele território, desde que havia feito a promessa ao poderoso militar que aqueles que eram como ele ajudariam a repelir os ataques dos homens de Hitler.

Absorto em seus pensamentos, vagava pelas ruas agora desertas, pensando no rumos que a guerra dos humanos estava tomando. Divagava também sobre o conflito que mais lhe interessava, que era o de sua raça com os lobos. Achava que havia conseguido um meio termo entre o Conselho dos Vampiros e a liderança dos lupinos, e talvez esse conflito milenar estivesse caminhando para a paz. Faltava agora convencer ao outro vampiro de sua espécie, o outro primordial, Vlad. Sabia que seria uma tarefa árdua, mas tinha esperança que conseguiria o seu objetivo.

Foi resgatado de seus pensamentos pela visão inusitada de um vaso com uma solitária rosa vermelha. A flor estava entre os escombros do que era um hospital, posto no chão pela artilharia alemã. Esboçou um pequeno sorriso, instigado pelo inusitado da beleza da flor em meio ao cenário de horror por onde perambulava sem rumo. Caminhou até o pequeno vaso, agachou-se para passar os dedos pelas pétalas.

– Me ajude…

A voz era fraca, quase um sussurro. Porém a sua audição aguçada a ouviu clara e cristalina, como se lhe estivesse ao pé do ouvido. Caminhou pelos escombros, abrindo caminho removendo alguns pedaços de tijolos e cimento.

– Por favor… Me ajude…

A voz se tornou mais audível, o que indicava que ele estava mais próximo. Removeu um grande pedaço de parede, que moveu-se como uma folha de papel sob sua impressionante força. Foi então que ele a viu. Uma mulher, de uns trinta e três, trinta e quatro anos estava deitada entre os escombros. Tinha os cabelos vermelhos como a rosa que vira instantes atrás, e seu rosto, mesmo sujo de sangue e fuligem, guardava um ar angelical. Estava vestida com um uniforme de enfermeira. Provavelmente estava de serviço no hospital quando ele fora bombardeado. Se aproximou e percebeu que ela tinha um grande ferimento na cabeça, além de escoriações e as duas pernas quebradas. Era praticamente um milagre ainda estar viva, depois de quase vinte e quatro horas do auge da batalha.

– Por favor… Por favor… Não me deixe morrer…

Ele se abaixou ao lado dela e lhe segurou a mão. Estava tão fria quanto a dele, parte pelo inverno, parte pela vida que lentamente lhe abandonava o corpo. A respiração dela começou a se acelerar, os olhos vidrados olhavam diretamente aos dele, desesperados. O vampiro se apiedou dela, mas relutou por um momento em lhe salvar, pois sabia o que aquilo implicaria para a vida da moça. Ela por sua vez não largava a sua mão, apertando-a com as últimas forças que lhe restavam.

– Por favor… Não me deixe morrer…

Desmaiou. Não demoraria agora, pensou o vampiro. Levou o pulso da moça até a boca e o mordeu delicadamente. Um pequeno fio de sangue escorreu pela pele pálida. Ele então retirou um pequeno punhal prateado de dentro do casaco e fez um pequeno corte na palma de sua mão e o pressionou contra a ferida no pulso da moça. Como por magia, a respiração dela começou a desacelerar. Parecia dormir agora. Ele então a pegou nos braços, e a levou em direção ao caminhão militar que tinha usado para chegar até a cidade. Lá, sua jovem assistente o aguardava pacientemente.

Ela, uma jovem de cabelos negros como a noite que caía agora sobre a cidade, ficou curiosa. Saiu da cabine do caminhão e subiu em sua carroceira, onde via o mestre ajeitar a enfermeira da forma mais confortável possível.

– Mestre, quem é ela?

– Esta Samantha, é a minha rosa de Stalingrado.

Confusa, a jovem vampira o olhou por alguns instantes. Em seguida, insistiu.

– Mas qual é o nome dela?

O vampiro olhou para ela e se deu conta que não fazia idéia de quem era aquela moça que salvara dos braços da morte. Olhou para ela e viu que havia um nome bordado no uniforme.

– Ursula…

Samantha olhou para ele e sorriu. Acabava de ganhar uma nova amiga.

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